Antropoceno
Série de GaiaNet nº 26
A Trajetória Poluidora da Humanidade nº 9
Documentos escritos antigos assinalam a significação que se dava ao uso da água
São muitos os dados contidos em antigos documentos escritos que assinalam a significação que se emprestava ao uso da água. No [rio] Eufrates, por exemplo, foi encontrada uma lápide de pedra calcária de mais ou menos 2300 a.C., com a seguinte inscrição: “Ur – Namu foi quem ordenou que se realizassem as obras dos canais; mas ele cede aos deuses a honra de fornecer a dádiva que é a água, abençoada, que dá fertilidade às terras”.
Também no Velho Testamento se encontram inúmeros indícios da importância que se conferia à água. Eis um exemplo: “Empreendi grandes obras, edifiquei para mim casas, plantei para mim vinhas. Fiz jardim e pomares para mim, e nestes plantei árvores frutíferas de toda espécie. Fiz para mim açudes para regar com eles o bosque em que reverdeciam as árvores.” (Eclesiastes 2, vers. 4 a 6).
Fonte: Hans Liebmann, Terra – um planeta inabitável? – Da antiguidade até os nossos dias toda a trajetória poluidora da humanidade, 1973, Biblioteca do Exército Editora, 1979, Capítulo III – O meio ambiente na Antiguidade, página 86; foto: Pngtree.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
Série de GaiaNet nº 22
Colapsos nº 33 – A crise climática que acabou com o Império Romano nº 1
Como o Império Romano realmente acabou
As invasões bárbaras e os conflitos da elite romana foram importantes. Mas outros elementos podem ter sido igualmente fortes: as mudanças climáticas e, com elas, uma sucessão de epidemias e crises agrícolas. Conheça as novas descobertas que estão reescrevendo a história de Roma.
Estamos no ano 166 d.C. O exército romano, sob liderança do senador Avídio Cássio, cerca a rica cidade de Selêucia (na região da atual Bagdá, no Iraque). Selêucia rapidamente se rende ante o poderio de Roma, mas os homens de Cássio iniciam um saque de grandes proporções mesmo assim. Um dos soldados invade o templo do deus Apolo e abre uma antiga arca. Reza a lenda que esse ato de sacrilégio fez com que saísse do baú um vapor pestilento, o qual “poluía tudo com contágio e morte, desde as fronteiras da Pérsia até o rio Reno e a Gália [França]”, segundo cronistas da época.
Assim teria começado a Peste Antonina – provavelmente uma pandemia de varíola, que correu o mundo antigo e teria exterminado 7 milhões de pessoas, ou 10% da população do Império Romano, na época o Estado mais populoso e poderoso do planeta. Jogar a culpa da tragédia no desrespeito a Apolo casava bem com a cultura greco-romana.
Fonte: Super Interessante, edição 471, janeiro 2025, Como o Império romano realmente acabou, páginas 46 e 47; foto: National Geographic
Rui Iwersen, editor de GaiaNet
Série de GaiaNet nº 20
Saúde do Planeta nº 54
Acesso à água em tempos de guerra
A ligação entre conflitos armados e escassez de água nem sempre é óbvia. Em Gaza, por exemplo, o controle da água se tornou uma arma de guerra desde o início da ofensiva israelense.
Em julho de 2024. um relatório da Oxfam apontou que as pessoas tinham acesso a apenas 4,74 litros por dia para todos os usos – incluindo beber, cozinhar e higiene pessoal -, muito menos que o padrão mínimo aceito internacionalmente para a sobrevivência básica em emergências, que é de 20 litros por dia.
Aa qualidade da pouca água disponível em Gaza também é preocupante…
Fonte: Médicos Sem Fronteiras, Revista Informação, página 7; foto: CNN Brasil.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet
Série de GaiaNet nº 24
A dramática história dos índios norte-americanos – nº 16
O capitão Graydon enganou os índios, indo direto ao acampamento, dando-lhes bebida, depois atirando e matando
Grayton fingiu grande amizade pelos mescaleros, chegando a lhes dar farinha de trigo e carne para a longa viagem. Pouco tempo depois, perto de Gallina Springs, o grupo de Graydon encontrou outra vez os mescaleros. Ninguém sabe o que aconteceu, pois nenhum mescalero sobreviveu ao incidente. Um oficial branco fez o seguinte relato:
“A operação foi realizada de forma estranha e pelo que pude saber, ele enganou os índios, indo direto ao acampamento, dando-lhes bebida, depois atirando e matando; os índios, sem dúvida, acharam que ele viera com propósitos amistosos, já que lhes tinha dado farinha de trigo, carne e provisões.”
Os outros três chefes, Cadette, Chato e Estrella, chegaram a Santa Fé e garantiram ao general Carleton que seu povo estava em paz com os brancos e apenas queria ser deixado sozinho em suas montanhas. “Vocês são mais fortes que nós”, disse Cadette. “Lutaríamos com vocês se tivéssemos rifles e pólvora; mas suas armas são melhores que as nossas. Deem-nos armas iguais e nos deixem livres, que também os combateremos; mas estamos abatidos; não temos mais ânimo; não temos provisões, nenhum meio de vida; suas tropas estão em toda parte; nossas fontes e nossos poços estão ocupados ou vigiados por seus jovens. Vocês nos tiraram de nosso último e melhor baluarte, e não temos mais ânimo. Façam conosco o que bem entenderem, mas não se esqueçam de que somos homens e bravos.
Dee Brown, Enterrem meu coração na curva do rio – A dramática história dos índios norte- americanos, 1970, Coleção L&PM Pocket, 2003; Capítulo 2, páginas 38 e 39; foto: InfoEscola.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
Série de GaiaNet nº 21
1501 – O Brasil depois de Cabral nº 48
No Brasil, nenhum grupo humano em épocas recentes sofreu campanha mais violenta e rápida de extermínio.
Sobrevivem apenas 8 indivíduos do grupo indígena Xetá, no presente. No Brasil, nenhum grupo humano em épocas recentes, pelo que se tem conhecimento na literatura e junto aos órgãos oficiais, sofreu campanha mais violenta e rápida de extermínio.
Os Xetá ocupavam a região da serra de Dourados, nó noroeste do Paraná. Com a movimentação da frente pioneira que se instalou no norte do Paraná, a partir dos anos trinta [do século XX], o território indígena foi alcançado e pulverizado. Em 1949, quando começou a divisão em glebas da serra de Dourados, falou-se da presença de índios. A seguir, em 1952, uma criança Xetá foi aprisionada e entregue a um funcionário do antigo SPI [Serviço de Proteção aos Índios]. Mas só em 1955, quando, depois de um rigoroso inverno, um grupo de índios com visíveis sinais de fome crônica se apresentou na fazenda Santa Clara, foi que o SPI tomou as primeiras providências para socorrê-los e protegê-los.
Silvio Coelho dos Santos, Educação e sociedades tribais, Editora Movimento, 1975, Capítulo I –Grupos tribais sobreviventes no sul do Brasil, Os Xetá, página 25; foto: SciELO.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
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Dia Nacional da Saúde
Série de GaiaNet nº 26
A Trajetória Poluidora da Humanidade nº 8
As primeiras leis da humanidade, fixadas por escrito, são códigos que regulam o uso da água
Nas civilizações da região mediterrânea de antes de Cristo, no Egito, no Oriente Próximo (persas, hititas, assírios, babilônios) e no Suleste da Europa (etruscos, gregos, romanos) parece que três problemas de defesa ecológica desempenharam papel de relevo: 1. A economia dos recursos hídricos; 2. A erosão do solo; 3. A higiene.
1. As leis das águas foram os primeiros códigos dos homens
É característico que os primeiros documentos escritos da humanidade, obras dos sumérios, que os tornaram conhecidos por volta do ano 4000 a. C., continham instruções sobre a irrigação de lavouras dispostas em forma de terraços. Como nas modernas regiões industrializadas, também nas civilizações antigas as preocupações com a água foram, desde os seus primórdios, um fator econômico predominante. As primeiras leis da humanidade, fixadas por escrito, são códigos que regulam o uso da água.
Fonte: Hans Liebmann, Terra – um planeta inabitável? – Da antiguidade até os nossos dias toda a trajetória poluidora da humanidade, 1973, Biblioteca do Exército Editora, 1979, Capítulo III – O meio ambiente na Antiguidade, página 84; foto: Portal Saneamento Básico.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
Série de GaiaNet nº 22
Colapsos nº 32
Civilização maia: motivo para o declínio é surpreendente e liga alerta
Você sabe o que causou o fim da civilização maia? Novos estudos sugerem um novo motivo, que deve ligar o alerta para os tempos atuais.
Cidade Maia de Chichen Itza (Crédito: Aleksandr Medvedkov/ Shutterstock)
Série de GaiaNet nº 20
Saúde do Planeta nº 53
17% de todas as terras agrícolas no mundo podem estar contaminadas por metais pesados
17% de todas as terras agrícolas no mundo podem estar contaminadas por metais pesados como arsênio, cádmio, cobalto, cromo, níquel e chumbo. Essa é a estimativa alarmante de um grupo de pesquisadores chineses, que analisaram os dados de 1.493 estudos realizados em diversas regiões do planeta, totalizando mais de 796 mil amostras do solo.
Esses metais podem estar naturalmente presentes na terra, ou chegar até ela por meio do descarte de resíduos industriais. As plantas acabam absorvendo esses elementos, que são altamente tóxicos e podem estar contaminando a alimentação de centenas de milhões de pessoas.
Fonte: Super Interessante, edição 475, maio 2025; Supernovas, página 13; foto: Geo Agri
Rui Iwersen, editor de GaiaNet
Série de GaiaNet nº 24
A dramática história dos índios norte-americanos – nº 15
Os mexicanos atacavam os navajos para roubar suas crianças e escravizá-las
Por tanto tempo quanto alguém podia lembrar, os mexicanos atacavam os navajos para roubar suas crianças e escravizá-las; por tanto tempo quanto alguém podia recordar, os navajos revidavam com ataques contra os mexicanos.
Depois que os americanos chegaram a Santa Fé e chamaram o lugar de Novo México, protegeram os mexicanos, pois eles haviam se tornado cidadãos americanos. Os navajos não eram cidadãos, pois eram índios; quando atacavam os mexicanos, os soldados invadiam o território navajo para puni-los como fora da lei. Isso era um enigma terrível para Manuelito e seu povo, pois eles sabiam que muitos dos mexicanos tinham sangue índio; os soldados nunca perseguiam os mexicanos para puni-los por roubar crianças navajas.
Dee Brown, Enterrem meu coração na curva do rio – A dramática história dos índios norte- americanos, 1970, Coleção L&PM Pocket, 2003; Capítulo 2, páginas 33 e 34; foto: Spiritualité autochtone.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
Série de GaiaNet nº 21
1501 – O Brasil depois de Cabral – nº 47
As populações indígenas que viviam no litoral sul foram aniquiladas durante o correr do século XVI pelas doenças, pela escravização e pela catequese
Todos os postos foram originariamente criados para atender aos Kaingang ou aos Xokleng. Devido a disputas tribais, responsáveis pelo desenvolvimento de muitos estereótipos que um grupo tribal tem sobre o outro, os Guarani são muitas vezes identificados como intrusos, ou apontados como índios diferentes, o que não se entende.
Tanto nos agrupamentos existentes nos postos, como naqueles localizados junto a áreas urbanas, incluindo neste caso famílias isoladas, os indivíduos mantêm em operação unidades de sua cultura tradicional de maneira bem mais característica do que entre Kaingang e Xokleng. Talvez a busca de isolamento no interior da reserva e o estabelecimento de elos mínimos de dependência da sociedade nacional, contribuam para a manutenção dos valores tribais. (…)
As populações indígenas que viviam no litoral sul, à época da descoberta do Brasil, foram aniquiladas durante o correr do século XVI pelas doenças, trazidas pelo europeu, pela escravização e pelo próprio trabalho de catequese dos jesuítas.
Silvio Coelho dos Santos, Educação e sociedades tribais, Editora Movimento, 1975, Capítulo I –Grupos tribais sobreviventes no sul do Brasil, Os Guarani, página 24; foto: Instituto Búzios.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
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Série de GaiaNet nº 26
A Trajetória Poluidora da Humanidade nº 7
Hoje em dia vivem na Terra milhões de pessoas cuja saúde está sendo afetada pelo meio ambiente
É possível que uma chave explicativa e pouco usada até o momento para esclarecer os grandes eventos históricos se encontre no frequente fracasso do homem ao ter de enfrentar o seu meio ambiente?
Não há dúvida de que, hoje em dia, vivem na Terra milhões de pessoas cuja saúde está sendo afetada pelo meio ambiente. Lesões pulmonares devidas ao péssimo ar que respiramos, lesões do fígado através dos tóxicos presentes na nossa alimentação, doenças infecciosas causadas por agentes patogênicos (transmitidas principalmente através das águas e dos esgotos) e crescentes manifestações alérgicas fazem que, anualmente, milhões de pessoas pereçam em conseqüência do meio ambiente doentio. Ao contrário dos nossos antepassados da Antiguidade, conhecemos hoje, perfeitamente, as correlações aí atuantes e as formas de ação dos germes patogênicos, inclusive seu ciclo de desenvolvimento.
Sabemos também que um grande número de personalidades históricas encontrou a morte devida a doenças infecciosas, pois não dominavam o seu meio ambiente – a começar pelos faraós, em cujas múmias foram encontrados transmissores de doenças altamente nocivos à vida humana (…) Existem muitos outros exemplos que nos fazem supor que os danos causados ao meio ambiente intervieram também, em larga escala, na História.
Fonte: Hans Liebmann, Terra – um planeta inabitável? – Da antiguidade até os nossos dias toda a trajetória poluidora da humanidade, 1973, Biblioteca do Exército Editora, 1979, Capítulo III – O meio ambiente na Antiguidade, página 83 ; foto: Socialismo Criativo.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
Teoria de Gaia
Em doses saudáveis, o efeito estufa é fundamental para a vida na Terra
A superfície da Terra e a água do mar absorvem luz solar durante o dia. À noite, esse calorzinho vai sendo liberado de volta na atmosfera na forma de radiação infravermelha, e sobe até escapar para o vácuo do espaço. Parte da radiação, porém, não chega a sair da Terra: fica retida por moléculas como o gás carbônico (CO₂) e o metano (CH). Dai eles se chamarem gases de efeito estufa: é como se estivéssemos sob uma redoma.
Em doses saudáveis, o efeito estufa é fundamental para a vida na Terra. Ele evita que as noites sejam insuportavelmente frias, e mantém a temperatura média do globo em um patamar agradável de 14 °C. Sem o dito-cujo, seriam 18 °C negativos. O tanto exato de calorzinho noturno em cada lugar do planeta, é claro, flutua conforme particularidades geográficas: cidades litorâneas são abafadas à noite porque a água do mar é eficaz em guardar calor, enquanto as areias de um deserto esfriam rápido e causam noites congelantes. Um céu nublado, por sua vez, é ótimo em evitar que o infravermelho escape enquanto você dorme.
Fonte: Super Interessante, edição 474, Oráculo; abril 2025, página 60; foto: Brasil Escola – UOL
Rui Iwersen, editor de GaiaNet
Série de GaiaNet nº 20
Saúde do Planeta nº 52
Em regiões costeiras a redução das vazões fluviais pode provocar o avanço de água salgada em direção ao continente
O bombeamento de água subterrânea pode rebaixar o nível do aquífero, fazendo com que um rio que antes recebia água passe a perdê-la para o aquífero. A longo prazo, dependendo das condições geológicas e climáticas, isso pode reduzir a vazão do rio.
Isso pode impactar a segurança hídrica e alimentar, diminuindo a disponibilidade de água para o abastecimento humano e a irrigação; a segurança energética, reduzindo o volume de água nos reservatórios [das hidrelétricas]; e os serviços ecossistêmicos, uma vez que é essencial manter uma vazão mínima no rio para garantir a conservação da vida no ecossistema aquático.
Em regiões costeiras, a redução das vazões fluviais pode provocar a intrusão salina, que ocorre quando a menor chegada de água doce ao oceano permite o avanço de água salgada em direção ao continente. Isso pode comprometer a saúde das pessoas que consomem água com alto teor de sal, aumentando o risco de hipertensão; danificar sistemas de adutoras e tubulações; além de comprometer o solo e a flora local.
Fonte: Super Interessante, edição 474, Rios brasileiros correm o risco de perder água; abril 2025, página 12; foto: Freepik
Rui Iwersen, editor de GaiaNet
Série de GaiaNet nº 22
Colapsos nº 31 – O apocalipse da Idade do Bronze nº 11
Grupos que sobreviveram à catástrofe criaram os novos reinos de Israel e Judá
E, com o passar dos séculos, em vários lugares, como a famosa Atenas, surgiram alguns dos primeiros experimentos de política democrática da História. Sem o desastre, seria muito mais difícil que isso acontecesse.
Do mesmo modo, na terra então conhecida como Canaã, a destruição de cidades-estado antes submetidas ao poder imperial do Egito, junto com a perda da própria influência egípcia, transformou completamente a história da região. Ali, grupos que sobreviveram à catástrofe criaram os novos reinos de Israel e Judá, celebrando sua libertação do domínio do Egito (que eles descreveram como uma escravidão em solo egípcio) e a fé num novo deus chamado Yahweh (ou Javé, na forma aportuguesada).
Começava assim a surgir a tradição religiosa que daria origem à Bíblia e as crenças judaicas, cristãs e islâmicas. Tal como no caso dos gregos, sem a destruição das antigas estruturas imperiais, esses caminhos inovadores talvez nunca chegassem a ser trilhados.
Super Interessante, edição 466, agosto de 2024, O apocalipse da Idade do Bronze, página 39; foto: VEJA.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
Série de GaiaNet nº 24
A dramática história dos índios norte-americanos – nº 14
Em 1860 o número de índios diminuíra à metade desde a chegada dos primeiros colonos
Foi então, no começo da década de 1860, que os homens brancos entraram em guerra entre si – os Casacos Azuis contra os Casacos Cinza, a grande Guerra Civil. Em 1860, havia provavelmente trezentos mil índios nos Estados Unidos e territórios, a maioria deles vivendo a oeste do Mississippi. Segundo cálculos que variam, seu número diminuíra de metade, ou de dois terços, desde a chegada dos primeiros colonos à Virgínia e à Nova Inglaterra.
Os sobreviventes agora estavam pressionados entre as populações brancas em expansão no Leste e no litoral do Pacífico – mais de trinta milhões de europeus e seus descendentes. Se as tribos livres remanescentes acreditavam que a Guerra Civil dos homens brancos trouxesse qualquer trégua em suas pressões por territórios, logo se desiludiriam.
Dee Brown, Enterrem meu coração na curva do rio – A dramática história dos índios norte- americanos, 1970, Coleção L&PM Pocket, 2003; Capítulo I, página 27; foto: Portal Cavalus.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
Série de GaiaNet nº 21
1501 – O Brasil depois de Cabral – nº 46
A situação particular dos Guarani leva-os a viver como verdadeiros marginais dentro das áreas indígenas
As entrevistas que temos realizado com índios Guarani sempre têm indicado que os informantes possuem uma larga experiência de viagens. É comum também a opinião dos chefes de postos sobre a continua mobilidade desses índios. Dizem: “os Guarani não usam muito o posto. Ficam sempre localizados num fundo da área. Ali fazem uma rocinha; caçam; vez ou outra aparecem na sede para vender algum balaio. E quando a gente menos espera, desaparecem…”
Essa situação particular dos Guarani leva-os a viver como verdadeiros marginais dentro das áreas indígenas. Não há na região sul um único posto para atendê-los. Todos os postos foram originariamente criados para atender aos Kaingang ou aos Xokleng. Devido a disputas tribais, responsáveis pelo desenvolvimento de muitos estereótipos que um grupo tribal tem sobre o outro, os Guarani são muitas vezes identificados como intrusos, ou apontados como índios diferentes, o que não se entende.
Silvio Coelho dos Santos, Educação e sociedades tribais, Editora Movimento, 1975, Capítulo I –Grupos tribais sobreviventes no sul do Brasil, Os Guarani, página 24; foto: Gazeta do Povo.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
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Série de GaiaNet nº 26
A Trajetória Poluidora da Humanidade nº 6
Grandes eventos históricos se devem ao fracasso do homem ao enfrentar o seu meio ambiente
Os maias não conseguiram superar os problemas ecológicos! Ocorreu algo semelhante com as antigas civilizações da região mediterrânea? Será que, talvez, o ocaso das antigas culturas que existiram no mundo foi amplamente condicionado pelo meio ambiente?
É possível que a história da China tivesse seguido outros rumos se, já nos tempos pré-cristãos, o desmatamento de vastas áreas na região dos rios Hoang e langtsé, vítimas então de grandes inundações, não tivesse deflagrado a cada vez a fome, e esta, por sua vez, as revoluções? É possível que uma chave explicativa e pouco usada até o momento para esclarecer os grandes eventos históricos se encontre no frequente fracasso do homem ao ter de enfrentar o seu meio ambiente?
Não há dúvida de que, hoje em dia, vivem na Terra milhões de pessoas cuja saúde está sendo afetada pelo meio ambiente.
Fonte: Hans Liebmann, Terra – um planeta inabitável? – Da antiguidade até os nossos dias toda a trajetória poluidora da humanidade, 1973, Biblioteca do Exército Editora, 1979, Capítulo III – O meio ambiente na Antiguidade, página 83 ; foto: História.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
Série de GaiaNet nº 22
Colapsos nº 30 – O apocalipse da Idade do Bronze nº 10
Em Atenas surgiram alguns dos primeiros experimentos de política democrática da História
Entretanto, foi justamente a queda dos governos palacianos que abriu espaço para uma reconstrução quase total da vida política e social na Grécia. Os antigos monarcas foram substituídos por assembleias dos proprietários de terras, que passaram a tomar decisões coletivamente.
E, com o passar dos séculos, em vários lugares, como a famosa Atenas, surgiram alguns dos primeiros experimentos de política democrática da História. Sem o desastre, seria muito mais difícil que isso acontecesse.
Super Interessante, edição 466, agosto de 2024, O apocalipse da Idade do Bronze, página 39; foto: Conhecimento Científico – R7.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
Série de GaiaNet nº 24
A dramática história dos índios norte-americanos – nº 13
Os europeus eram a raça dominante e, portanto, responsável pelos índios – juntamente com suas terras, suas florestas e suas riquezas minerais
Em 1848, foi descoberto ouro na Califórnia. Em alguns meses, gente do Leste aos milhares, buscando fortuna, estava cruzando o território índio. Índios que viviam ou caçavam no longo das trilhas de Santa Fé e Oregon acostumaram-se a ver uma caravana ocasional de carroções, autorizada para comerciantes, caçadores ou missionários. Agora, de repente, as trilhas estavam cheias de carroções, e os carroções estavam cheios de gente branca. A maioria indo rumo ao ouro da Califórnia, mas alguns se dirigindo para o sul, para o Novo México ou para o norte, para o território do Oregon.
Para justificar essas quebras da “fronteira índia permanente”, os homens que tomavam decisões em Washington Inventaram o Destino Manifesto, uma expressão que elevava a fome de terras a um plano sublime. Os europeus e seus descendentes haviam sido escolhidos pelo destino para dominar toda a América. Eram a raça dominante e, portanto, responsável pelos índios – juntamente com suas terras, suas florestas e suas riquezas minerais. Só os habitantes da Nova Inglaterra, que haviam destruído ou expulsado todos seus índios, falaram contra Destino Manifesto.
Dee Brown, Enterrem meu coração na curva do rio – A dramática história dos índios norte- americanos, 1970, Coleção L&PM Pocket, 2003; Capítulo I, páginas 26 e 27; foto: mozaWeb.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
Série de GaiaNet nº 21
1501 – O Brasil depois de Cabral – nº 45
Os Guarani que vivem junto aos postos indígenas somam 878 indivíduos
Os Guarani estão dispersos em pequenos grupos por vários postos indígenas e, também, por núcleos urbanos. Os que vivem junto aos postos indígenas somam 878 indivíduos. Os grupos desassistidos pelo órgão oficial não têm aldeamentos permanentes. Perambulando de um lugar para outro, esses grupos ora estão na periferia de Porto Alegre, ora nas vizinhanças de Florianópolis ou Curitiba.
Todas as informações que logramos reunir indicam que esses contingentes Guarani pertencem ao grupo Mbüa, oriundos do noroeste da Argentina, do Paraguai e sul do Mato Grosso, sua região tradicional. Esses contingentes não são remanescentes das antigas populações Guarani que, à época da descoberta, ocupavam o litoral do sul do Brasil.
Silvio Coelho dos Santos, Educação e sociedades tribais, Editora Movimento, 1975, Capítulo I – Grupos tribais sobreviventes no sul do Brasil, Os Guarani, páginas 23 e 24; foto: Povos Indígenas no Brasil Mirim.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
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Série de GaiaNet nº 26
A Trajetória Poluidora da Humanidade nº 5
Os maias fracassaram por não terem conseguido solucionar os problemas ecológicos
A concentração de massas humanas cada vez maiores tornou acentuadamente mais difícil o abastecimento de géneros alimentícios. De onde, porém, os habitantes das cidades obtinham suas provisões alimentares? Em que lugares e sob que condições faziam as suas plantações? Havia possibilidades de se incrementar o cultivo agrícola e a criação de animais?
Os maias fracassaram, por exemplo, por não terem conseguido solucionar esses problemas. Embora as suas cidades estivessem localizadas nas úmidas matas tropicais – nas florestas virgens de Palenque e Tical, por exemplo – tiveram que, por fim, abandonar as suas cidades devido à carência de água e à erosão do solo, ocasionada pela derrubada da mata virgem primitiva. Os maias não conseguiram superar os problemas ecológicos.
Fonte: Hans Liebmann, Terra – um planeta inabitável? – Da antiguidade até os nossos dias toda a trajetória poluidora da humanidade, 1973, Biblioteca do Exército Editora, 1979, Capítulo III – O meio ambiente na Antiguidade, páginas 82 e 83 ; foto: BigViagem.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
Série de GaiaNet nº 22
Colapsos nº 30 – O apocalipse da Idade do Bronze nº 9
A Idade do Bronze acaba, dando origem à Idade do Ferro
O caso dos habitantes da ilha de Chipre tem algumas semelhanças com a dos fenícios. (…) mas [o arqueólogo americano Eric] Cline destaca outro ponto-chave: inovação tecnológica. “Eles são inovadores, inventivos. Conseguiram mudar de ramo, passando da produção de cobre para a de ferro, embora a de cobre não desapareça totalmente, claro”, explica. Não é por acaso, afinal de contas, que a Idade do Bronze (metal que tem o cobre como uma de suas matérias primas [com o estanho]) tenha acabado, dando origem justamente à Idade do Ferro.
Na verdade, a produção de ferro já era conhecida por algumas das civilizações da Idade do Bronze, mas os processos usados para transformar o metal em armas e utensílios mais confiáveis e bem mais baratos que os de bronze ainda estavam sendo desenvolvidos. E os cipriotas desempenharam um papel crucial nisso.
Super Interessante, edição 466, agosto de 2024, O apocalipse da Idade do Bronze, página 39; foto: Mega Curioso.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.

A Mata Atlântica é um dos ecossistemas mais ricos em biodiversidade do mundo. São 20 mil espécies vegetais, 849 de aves, 370 de anfíbios, 200 de répteis, 270 de mamíferos e 350 espécies de peixes.
Como a maioria das florestas, esse ecossistema está cada vez mais sofrendo pela ação do homem através do desmatamento e pelas queimadas principalmente.
Assim, por sua importância, dia 27 de maio é comemorado o Dia da Mata Atlântica e tem o objetivo de servir como ponto de reflexão sobre a necessidade de preservação e de conscientização a respeito das ações necessárias para mudar essa realidade. (…)
Fonte: Smart Kids e Página Calendário Ecológico de GaiaNet.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
Série de GaiaNet nº 24
A dramática história dos índios norte-americanos – nº 12
A grande nação cherokee, que sobrevivera a mais de cem anos de guerras, agora seria dizimada
Para os índios, parecia que os europeus odiavam tudo na natureza – as florestas vivas e seus pássaros e bichos, as extensões de grama, a água, o solo e o próprio ar.
A década que se seguiu ao estabelecimento da “fronteira índia permanente” foi um período ruim para as tribos orientais. A grande nação cherokee sobrevivera a mais de cem anos de guerras, doenças e uísque do homem branco, mas agora seria dizimada. Como os cherokees eram milhares, sua deslocação para o Oeste havia sido planejada em etapas gradativas, mas a descoberta de ouro apalachiano dentro de seu território causou um clamor por seu êxodo total e imediato.
Durante o outono de 1888, os soldados do general Winfield Scott os cercaram e os concentraram em acampamentos. (…) Dos campos de prisioneiros, começaram a partir para o Oeste, rumo ao Território Índio. Na longa jornada de inverno, um entre quatro cherokees morreu de frio, fome ou doença. Chamaram-na de marcha do “caminho de lágrimas”.
Dee Brown, Enterrem meu coração na curva do rio – A dramática história dos índios norte- americanos, 1970, Coleção L&PM Pocket, 2003; Capítulo I, páginas 25 e 26; foto: Portal Cavalus.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
Série de GaiaNet nº 21
1501 – O Brasil depois de Cabral – nº 44
Os Xokleng estão em vias de rápido desaparecimento
A esperança de viver dias melhores já desapareceu para a maioria da população. “A reserva é um desânimo só”, disse-me há alguns dias um regional interessado na situação dos índios.
Em São João dos Pobres, os Xokleng estão em vias de rápido desaparecimento. Vivem sem assistência oficial. São 4 indivíduos apenas. Um homem e três mulheres. Outrora, em 1920, ano da atração, somavam 50. A terra que ocupam jamais foi regularizada pelos órgãos assistenciais. O precário apoio que recebem é obtido junto aos postos assistenciais dos governos municipais.
O desaparecimento desse grupo, entretanto, está a ocorrer dentro de um quadro muito especial. Trata-se da negativa flagrante dos descendentes mestiços do grupo a assumir a identificação indígena, decorrente dos estereótipos altamente negativos que os regionais mantêm sobre os índios.
Fonte: Silvio Coelho dos Santos, Educação e sociedades tribais, Editora Movimento, 1975, Capítulo I – Grupos tribais sobreviventes no sul do Brasil, Os Xokleng, página 23; foto: Conselho Indigenista Missionário – Cimi.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
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Saúde do Planeta nº 51
Rios brasileiros correm o risco de perder água
Pesquisadores da USP analisaram 17.972 poços localizados a menos de 1 km de rios de todo o Brasil, e encontraram um sinal preocupante: mais da metade deles (55 %) apresentou nível inferior ao do rio mais próximo – indicando que, a longo prazo, os rios podem perder água. (…)
Isso indica que, se existir uma conexão hidráulica entre o rio e o aquífero, esse rio pode estar perdendo água para o aquífero. É um processo natural. Se o nível do aquífero estiver acima do nível do rio, o rio potencialmente está recebendo água do aquífero. Caso contrário, ele está potencialmente perdendo água para o aquífero.
O bombeamento de água subterrânea pode rebaixar o nível do aquífero, fazendo com que um rio que antes recebia água passe a perdê-la para o aquífero. A longo prazo, dependendo das condições geológicas e climáticas, isso pode reduzir a vazão do rio.
Fonte: Super Interessante, edição 474, abril 2025, página 12; foto: Jota
Rui Iwersen, editor de GaiaNet
Série de GaiaNet nº 26
A Trajetória Poluidora da Humanidade nº 4
As antigas realizações técnicas tinham relações com a defesa, a obtenção e o armazenamento de água
O acúmulo de dezenas de milhares de pessoas num espaço reduzido, depois mesmo de centenas de milhares de pessoas, levou o homem, já na Antiguidade, a se ver confrontado com problemas de defesa ecológica, tal como os conhecemos também nas nossas metrópoles.
De um lado, as águas produzidas por fontes nas proximidades das grandes cidades tinham de ser captadas, armazenadas e conduzidas às povoações. Vincula-se a isso a eliminação das águas servidas, ou seja, os esgotos. Não devemos pois nos admirar de que as antigas realizações técnicas do homem tivessem de manter restritas relações com o desenvolvimento de instalações destinadas à defesa, à obtenção e ao armazenamento de água. Foi no âmbito da economia dos recursos hídricos que primeiro se obtiveram conhecimentos que continuam a ser proveitosos ainda nos nossos dias.
Fonte: Hans Liebmann, Terra – um planeta inabitável? – Da antiguidade até os nossos dias toda a trajetória poluidora da humanidade, 1973, Biblioteca do Exército Editora, 1979, Capítulo III – O meio ambiente na Antiguidade, página 82 ; foto: Guia do Estudante.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
Série de GaiaNet nº 22
Colapsos nº 29 – O apocalipse da Idade do Bronze nº 8
Água em abundância faz toda a diferença do mundo para um império agrário
A sorte de ambas essas potências mesopotâmicas [Assíria e Babilônia] é que, para começo de conversa, elas estavam relativamente longe do Mediterrâneo – e, portanto, fora do alcance direto dos navios dos Povos do Mar. O segundo ingrediente da sobrevivência: liderança com a cabeça no lugar. (…)
E há, é claro, um fator ainda mais crucial: água. Água em abundância faz toda a diferença do mundo para um império agrário. “Assírios e babilônios podiam contar com o Tigre e o Eufrates, que continuavam fornecendo água em quantidades adequadas mesmo durante a grande seca”, diz o arqueólogo americano [Eric Cline]. “Os egípcios tinham o Nilo. Já os hititas não contavam com nenhum rio tão resiliente em seu território.”
Super Interessante, edição 466, agosto de 2024, O apocalipse da Idade do Bronze, página 39; foto: Facebook.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
Série de GaiaNet nº 24
A dramática história dos índios norte-americanos – nº 11
Para os índios parecia que os europeus odiavam tudo na natureza
No continente, os wampanoags de Massasoit e do rei Philip haviam desaparecido, junto com os chesapeakes, os chickahominys e os potomacs da grande confederação Powhatan. (Só Pocahontas era lembrada). Dispersos ou reduzidos a sobreviventes: os pequots, montauks, nanticokes, machapungas, catawbas, cheraws, miamis, hurons, eries, mohawks, senecas e mohegans. (Só Uncas era lembrado). Seus nomes, que se celebrizaram na história da sua pátria, permaneceram para sempre fixados na terra americana; mas seus ossos estavam abandonados, esquecidos em mil aldeias queimadas, perdidos em florestas que logo desapareciam diante dos machados de vinte milhões de invasores.
Os rios, de cujas águas límpidas e cristalinas se serviam eșses povos, a maioria com nomes índios, já estavam turvados pelo lodo e pelos detritos dos intrusos; a própria terra estava sendo devastada e dissipada. Para os índios, parecia que os europeus odiavam tudo na natureza – as florestas vivas e seus pássaros e bichos, as extensões de grama, a água, o solo e o próprio ar.
Dee Brown, Enterrem meu coração na curva do rio – A dramática história dos índios norte-americanos, 1970, Coleção L&PM Pocket, 2003; Capítulo I, página 25; foto: Portal dos Mitos.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
Série de GaiaNet nº 21
1501 – O Brasil depois de Cabral – nº 43
A maioria dos Xokleng hoje sobrevive pela execução de atividades de extração de palmitos em áreas florestais
Orientando o posto indígena desde a pacificação [em 1910] até 1954, Eduardo Hoerhan logrou resguardar a área indígena de Ibirama da exploração dos civilizados regionais. Com a sua destituição, entretanto, esse quadro logo se modificou. Em pouco tempo, os Xokleng passaram a ser utilizados pela sociedade regional em seu potencial de mão de obra e capacidade de consumo, enquanto o potencial florestal da reserva começou a ser sistematicamente explorado.
Sujeitos a situações de trabalho em que predomina a espoliação, a maioria dos Xokleng hoje sobrevive pela execução de atividades de extração de palmitos em áreas florestais localizadas fora do posto indígena. A agricultura é praticada de modo bastante precário, pois não há condição para os índios, isoladamente, dinamizarem tal atividade. A exploração de madeiras que continuamente vem se fazendo na reserva, pela associação da FUNAI com madeireiros regionais, não utiliza em nenhum momento a mão de obra indígena. A prostituição não é desconhecida por muitos dos elementos do sexo feminino. A esperança de viver dias melhores já desapareceu para a maioria da população. “A reserva é um desânimo só”, disse-me há alguns dias um regional interessado na situação dos índios.
Fonte: Silvio Coelho dos Santos, Educação e sociedades tribais, Editora Movimento, 1975, Capítulo I – Grupos tribais sobreviventes no sul do Brasil, página 23; foto: BBC News.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
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Série de GaiaNet nº 26
A Trajetória Poluidora da Humanidade nº 3
O que mais o impressionou um pigmeu que vivia ainda na selva foi a água canalizada de nossas cidades
Quando, há algumas décadas, foi trazido para uma metrópole australiana um pigmeu que vivia ainda na selva, num ambiente da Idade da Pedra, perguntaram-lhe, depois de lhe terem mostrado todas as conquistas da civilização, o que lhe tinha causado maior impressão. Ao contrário do que se esperava, ele não respondeu que tinham sido os “arranha-céus”. O que mais o impressionou foi o fato de que, ao se abrir uma simples torneira, escorria “água” da canalização, em grande quantidade.
Com seu instinto seguro, o pigmeu tinha reconhecido que não invejava o homem civilizado por possuir aquelas torres de cimento e tijolos e suas autoestradas. Portanto, só podia causar-lhe admiração, realmente, o fato de que se podia obter, pela canalização, qualquer quantidade de água, a toda hora do dia ou da noite.
Tratando-se do elemento básico, que é sobreviver na luta pela existência no nosso planeta, a água límpida e potável é mais importante do que o mais rápido e maior dos jatos tipo Jumbo que atravessam os oceanos em tempo recorde.
Fonte: Hans Liebmann, Terra – um planeta inabitável? – Da antiguidade até os nossos dias toda a trajetória poluidora da humanidade, 1973, Biblioteca do Exército Editora, 1979, Capítulo III – O meio ambiente na Antiguidade, página 81 ; foto: Inforpress.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
Série de GaiaNet nº 22
Colapsos nº 28 – O apocalipse da Idade do Bronze nº 7
As potências mesopotâmicas estavam relativamente longe do Mediterrâneo, fora do alcance direto dos navios dos Povos do Mar
Seja como for, o cenário geral da desgraça e suas causas estão ficando razoavelmente claros. O apocalipse da Idade do Bronze está relacionado a guerras e fenômenos climáticos, com suas consequências políticas e econômicas. (…)
Na categoria dos sobreviventes, cada caso é um caso, mas há alguns pontos interessantes em comum. Talvez a situação mais simples de entender seja a da Mesopotâmia (grosso modo, o atual Iraque), onde a Assíria, no norte, e a Babilônia, no sul, mantiveram sua estrutura estatal mais ou menos intacta.
A sorte de ambas essas potências mesopotâmicas é que, para começo de conversa, elas estavam relativamente longe do Mediterrâneo – e, portanto, fora do alcance direto dos navios dos Povos do Mar. O segundo ingrediente da sobrevivência: liderança com a cabeça no lugar. “Eles tiveram os líderes certos na hora certa. Enquanto o Império Hitita, por exemplo, bem no momento em que a grande seca causava seus piores efeitos, acabou dilacerado por uma guerra entre membros da família real.”
Fonte: Super Interessante, edição 466, agosto de 2024, O apocalipse da Idade do Bronze, páginas 36 e 39; foto: Planejativo.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
Série de GaiaNet nº 24
A dramática história dos índios norte-americanos – nº 10
Os europeus que seguiram Colombo destruíram a vegetação e seus habitantes – homens, animais, pássaros e peixes – da ilha de São Salvador
Mais de três séculos haviam se passado desde que Cristóvão Colombo desembarcara em São Salvador, mais de dois séculos desde que os colonos ingleses haviam chegado à Virginia e à Nova Inglaterra. Nesse espaço de tempo, os amistosos tainos que receberam Colombo na praia haviam sido completamente dizimados.
Bem antes do último dos tainos morrer, a simplicidade de sua cultura de lavoura e artesanato fora destruída e substituída por plantações de algodão onde trabalhavam escravos. Os colonos brancos abateram as florestas tropicais para aumentar seus campos; os algodoeiros cansaram o solo; sem o escudo das florestas, ventos cobriam os campos de areia.
Quando Colombo viu a ilha pela primeira vez, descreveu-a como “muito grande, muito alta e com árvores muito verdes… o conjunto é tão verde que é um prazer olhá-lo”. Os europeus que o seguiram destruíram sua vegetação e seus habitantes – homens, animais, pássaros e peixes – e, depois de a transformarem num deserto, abandonaram-na.
Fonte: Dee Brown, Enterrem meu coração na curva do rio – A dramática história dos índios norte-americanos, 1970, Coleção L&PM Pocket, 2003; Capítulo I, páginas 24 e 25; foto: Mundo Educação – UOL.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
Série de GaiaNet nº 21
1501 – O Brasil depois de Cabral – nº 42
Epidemias grassaram no grupo, ceifando a maior parte dos índios que haviam sido atraídos
” (…) se pudesse prever que iria vê-los morrer tão miseravelmente, os teria deixado na mata, onde ao menos morriam mais felizes e defendendo-se de armas nas mãos contra os bugreiros que os assaltavam.”
Efetivamente, os Xokleng passaram a enfrentar inimigos mais sutis, mas com maior poder destrutivo. Epidemias grassaram no grupo, ceifando a maior parte dos índios que haviam sido atraídos. Os sobreviventes tiveram de se adaptar à vida sedentária, substituindo suas atividades tradicionais de caça e coleta, pelo cultivo de roças. A dieta alimentar foi bruscamente alterada, contribuindo, hoje se sabe, para a disseminação de doenças. O desequilíbrio demográfico, por sua vez, alterou toda a organização tribal, tornando o grupo definitivamente dependente do organismo oficial de proteção.
Fonte: Silvio Coelho dos Santos, Educação e sociedades tribais, Editora Movimento, 1975, Capítulo I – Grupos tribais sobreviventes no sul do Brasil, página 22; foto: Terra.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
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Série de GaiaNet nº 26
A Trajetória Poluidora da Humanidade nº 2
Nas épocas pré-cristãs das civilizações mediterrâneas existiam metrópoles que já enfrentavam problemas ecológicos
Já há algumas décadas comecei a me conscientizar de que a humanidade se encontra à beira do maior perigo que enfrentou até hoje. Nem a mais devastadora das guerras, nem a destruição de que são capazes as bombas atômicas têm o poder de ameaçar a existência humana na mesma proporção que o fará a catástrofe ecológica que se avizinha. Eis porque surge, óbvia, a indagação: será que os danos ecológicos são um sinal característico da moderna civilização ou também exerceram marcante influência na Antiguidade?
Nas épocas pré-cristãs das civilizações mediterrâneas existiam metrópoles que, certamente, já enfrentavam problemas de defesa ecológica. Como, por essa época, a utilização da técnica ainda não tinha progredido como hoje em dia, podemos excluir a ameaça da poluição atmosférica. Porém, devemos voltar a nossa atenção para os danos ecológicos ocasionados pelo desmatamento, pela erosão do solo, pelos esgotos e pelo lixo doméstico.
Fonte: Hans Liebmann, Terra – um planeta inabitável? – Da antiguidade até os nossos dias toda a trajetória poluidora da humanidade, 1973, Biblioteca do Exército Editora, 1979, Capítulo III – O meio ambiente na Antiguidade, páginas 79 e 80; foto: iStock.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
Gelo polar deve seguir derretendo até 2300
Mesmo se a humanidade cortar drasticamente as suas emissões de CO2, em quantidade suficiente para alcançar o estado de “carbono negativo”(situação em que o carbono da atmosfera começa a diminuir), e fizer isso relativamente rápido, já a partir de 2050, o Círculo Polar Ártico deve continuar derretendo por muito tempo, pelo menos até o ano 2300.
Essa é a conclusão pouco animadora de uma simulação feita por cientistas da Coréia do Sul, que analisaram áreas cobertas por permafrost: regiões polares onde o gelo normalmente nunca derrete, mas devido às mudanças climáticas começou a fazer isso [derreter].
Segundo o estudo, os polos vão continuar descongelando porque o aquecimento global já tomou muito impulso – e também porque, ao derreter, o permafrost libera CO2 e metano, que retêm calor na atmosfera e realimentam o processo [e libera também micro-organismos, talvez nocivos à saúde humana ou de outros animais].
Fonte: Bruno Garattoni, Supernovas, Super Interessante, edição 473, março 2025, página 10; foto: Aventuras no Conhecimento.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
Série de GaiaNet nº 22
Colapsos nº 27 – O apocalipse da Idade do Bronze nº 6
O apocalipse da Idade do Bronze está relacionado a guerras e fenômenos climáticos
“Dois anos contínuos [de seca] costumam destruir as estratégias de resiliência a longo prazo, fazendo com que, por exemplo, não seja mais possível alimentar animais domésticos nas fazendas. Um terceiro ano consecutivo é muito raro, e muito sério”, afirma Manning [Stuart Manning, da Universidade Cornell (EUA)]. “No mundo pré-moderno, isso acabaria minando a autoridade do rei, tanto pela incapacidade de coletar impostos e alimentar o Exército quanto também do ponto de vista simbólico: claramente os deuses abandonaram e rejeitaram os governantes.” (…)
Por outro lado, as colheitas ruins também podem ter estimulado revoltas internas em vários reinos – até porque, na maioria dos casos, não há indício de que uma população vinda de fora tenha conquistado os domínios palacianos.
Seja como for, o cenário geral da desgraça e suas causas estão ficando razoavelmente claros. O apocalipse da Idade do Bronze está relacionado a guerras e fenômenos climáticos, com suas consequências políticas e econômicas.
Fonte: Super Interessante, edição 466, agosto de 2024, O apocalipse da Idade do Bronze, página 36; foto: Notícias Concursos.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
Série de GaiaNet nº 26
A Trajetória Poluidora da Humanidade nº 1
Apresento, a partir de hoje, esta nova Série de GaiaNet com cerca de 60 pequenos artigos extraídos dos capítulos III – O Meio Ambiente na Antiguidade, IV – O Meio Ambiente na Idade Média e V – Como Escapar da Catástrofe Ecológica do livro Terra -Um Planeta Inabitável? do alemão Hans Liebmann, de 1973.
Estamos fazendo que o nosso planeta acabe por se tornar artificialmente inabitável nas próximas décadas
A alteração do equilíbrio biológico do nosso meio ambiente e os tantos focos de perigo que nós próprios criamos através da poluição do nosso espaço vital, quer terrestre, aquático ou atmosférico – todos esses sinais de alarma e suas consequências para cada um de nós em particular são de tal forma graves que não podemos ficar à espera de medidas legais que possam salvar o nosso planeta. Já tão-somente o nosso instinto de conservação deveria ser suficiente para nos livrar dos terríveis acontecimentos que se anunciam.
No entanto, sabemos todos nós muito bem que isso não acontece e que, a passos de gigante, por nos afastarmos sempre mais da vida natural, estamos fazendo que o nosso planeta acabe por se tornar artificialmente inabitável nas próximas décadas.
Fonte: Hans Liebmann, Terra – um planeta inabitável? – Da antiguidade até os nossos dias toda a trajetória poluidora da humanidade, 1973, Biblioteca do Exército Editora, 1979, Capítulo III – O meio ambiente na Antiguidade, página 79; foto: Dreamstime.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
Série de GaiaNet nº 24
A dramática história dos índios norte-americanos – nº 9
Os holandeses ordenaram o massacre de duas aldeias inteiras enquanto os habitantes dormiam
Quando os holandeses chegaram à ilha de Manhattan, Peter Minuit comprou-a por sessenta florins em anzóis e contas de vidro, mas eles encorajaram os índios a permanecer e continuar trocando suas valiosas peles por tais bugigangas.
Em 1641, Willem Kieft cobrou tributos dos mahicans e enviou soldados à ilha Staten para punir os raritans por ofensas cometidas por colonos brancos, não por eles. Quando os índios revidaram, matando quatro holandeses, Kieft ordenou o massacre de duas aldeias inteiras enquanto os habitantes dormiam. Os holandeses passaram à baioneta homens, mulheres e crianças, cortaram seus corpos em pedaços e arrasaram as aldeias com fogo.
Por mais dois séculos, esses fatos se repetiram, enquanto os colonos europeus deslocavam=se para o interior, através de passagens entre os montes Alleghenies, e para os rios que corriam no rumo oeste, para o Grandes Águas (o Mississippi) e para o Grande Barrento (o Missouri).
Fonte: Dee Brown, Enterrem meu coração na curva do rio – A dramática história dos índios norte-americanos, 1970, Coleção L&PM Pocket, 2003; Capítulo I, página 22; foto: InfoEscola.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
Série de GaiaNet nº 21
1501 – O Brasil depois de Cabral – nº 41
O convívio não fez cessar a violência e a dramaticidade das relações entre índios e não-índios
As pressões exercidas pela frente de expansão sobre o território ocupado pelos Xokleng foi de tal ordem que, em vários episódios onde os índios assaltaram os brancos, evidencia-se claramente que a fome era a razão do ataque.
Assim sendo, compreende-se porque as técnicas de persuasão empregadas pelo novo e vigoroso Serviço de Proteção aos Índios, além da bravura do jovem Eduardo Hoerhan, convenceram a maioria dos Shokleng sobreviventes ao convívio pacífico. Convívio que entretanto não fez cessar a violência e a dramaticidade das relações entre índios e não-índios. E isto se depreende nitidamente do seguinte depoimento do pacificador:
” (…) se pudesse prever que iria vê-los morrer tão miseravelmente, os teria deixado na mata, onde ao menos morreriam mais felizes e defendendo-se de armas nas mãos contra os bugreiros que os assaltavam.”
Fonte: Silvio Coelho dos Santos, Educação e sociedades tribais, Editora Movimento, 1975, Capítulo I – Grupos tribais sobreviventes no sul do Brasil, página 22; foto: AgroSaber.
Rui Iwersen, editor de GaiaNet.
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